Verdes autênticos não votam em Marina, que não cumpriu promessa de refundar o PV
30 de agosto de 2010Volta e meia recebo telefonemas de pessoas de bem, que resolveram se candidatar a deputado federal ou distrital em Brasília, pedindo apoio, querendo conversar, saber mais sobre o partido em que entraram.
Entraram numa fria, é o que tenho dito. Primeiro, porque o partido no DF - assim como na maioria dos Estados - não existe como grupo de militantes, que se reúne regularmente, que toma decisões, vota internamente, faz atas e escolhe a executiva local.
No DF,como em outros grotões mantidos pelos dirigentes ligados ao eterno presidente nacional,vereador por São Paulo, José Penna, há uns doze anos o Partido Verde é provsório. Sua executiva, sempre comandada pelo empreiteiro Eduardo Brandão, nunca aceitou que se organizasse livremente um grupo de militantes, fizessse eleição para escolha da executiva distrital, criasse as regionais e zonais, enfim, exercitasse a democracia interna.
Só nas vésperas de eleições - como quando fui convidado a candidato a senador em 2002 para compor com os companheiros Rodrigo Rollemberg (então candidato a governador) e Cristovam Buarque (candidato a senador, como o é novamente) - é que vinha uma canetada da executiva nacional, renomeando a executiva distrital comandada como sempre por Brandão. Este, por sua vez, era também o secretário nacional ora de finanças, ora de administração, para junto com Pena e sua turma tocar uma ilegal “comissão operacional“ que gastava o fundo partidário a seu bel prazer. Numa das contas rejeitadas pelo TSE estavam saques de quarenta e tantos mil reais para a conta de Eduardo, justificados depois com vários recibos com a mesma data e teor, assinados pelo Pena. Noutra denúncia estavam gastos superafaturados com frete de avião, noutra denúncias de notas frias emitidas por uma firma fantasma que mudava de endereço frequentemente no interior de São Paulo e era “contratada“ para prestar serviços de comunicação.
Isto tudo foi levado ao conhecimento da senadora Marina Silva, em meados de 2009. Ela prometia, através de seus coordenador político Pedro Ivo, que estabeleceria a seriedade, honestidade e a democracia interna no PV tão logo conseguisse fazer com que os dirigentes de Pena aceitassem a entrada de dez de ex-militantes do PV, à frente o deputado Luciano Zica,que seria vice-presidente, para por ordem na casa. Não seriam barradas candidaturas de quem quer que fosse, nem seriam aceitos os esquemas de os PVs locais fazerem parte de governos como o do ex-governador preso do DF, José Roberto Arruda, apenas para dar emprego para os membros das executivas (indicadas a penadas!) e tentar pegar subcontratos de empreitada para firmas dos próprios e conhecidos.
Marina ficou sabendo também que, na época em que Fernando Gabeira estava tentando derrubar o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, por corrupção, o próprio Severino disse que o “o PV não tinha moral“ para falar “dessas coisas“. Fomos investigar e descobrimos que naqueles dias mesmo, horas antes de Gabeira apontar o dedo para Severino no plenário, o presidente do PV-DF, Eduardo Cavalcanti Brandão, estava mais uma vez frequentando o gabinete do presidente da Câmara implorando pelo cancelamento de uma multa então na cada de R$ 800 mil reais, a que a construtora dele e de sua familia, Sotecon, havia sido condenada por não ter conconcluido uma obra que pegara na Casa, para fazer o prédio do Centro de Formação (Cefor).
Dona Marina, com sua bíblia à mão, como que jurava que tudo mudaria, que haveria um congresso nacional de verdade, sem compra de delegados, sem mutreta, sem troca de favores e pagamento de passagens, como ocorrera em 2007 quando o atual ministro da Cultura, Juca Ferreira, perdera a eleição para - advinhe! - a turma do Pena, desta feita com anuência dos deputados em quem confiávamos, como o próprio Gabeira e o Zequinha Sarney.
Ora, naquele tempo, como gosta de dizer a bíblia da candidata - que vai contra os princípios progressistas que sempre orientaram o PV, como descriminalização do aborto e do uso de maconha, liberdade para casais gays, ética, democracia e honestidade - tudo isso foi levado às reuniões no gabiente da senadora. De tudo ela ficou sabendo e sempre garantia que não haveria candidatura barrada em lugar nenhum e que ocorreria o tal congresso honesto para defenestrar a turma do Pena/Brandão.
Como todo mundo sabe, houve sim impedimento de filiação de candidatos (só dos que tenho conhecimento aqui ao lado foram mais de 200 em Goiás, que acabaram indo para o PSoL) por medo dos penistas de perderem o controle da máquina verde. E outros, da dissidência ética que adotou Juca como líder, que defendiam a aliança com o projeto de esquerda de Lula e Dilma, foram impedidos de se candidatar.
Marina sabia de tudo, Luciano Zica também. Não conseguiram ou não se esforçaram para recriar o PV, como ela mesmo havia prometido de público. Preferiu sair na tv ao lado de Pena e Brandão, entre outros que agora não passam de um por cento nas pesquisas para governador.
Juntando isso tudo com o fato de Marina ter sido uma ministra de Meio Ambiente no mínimo sofrível, quem nem se compara com a gestão de Zequiha Sarney no governo FHC, aplaudido pelas ongs, temos aí este resultado que todos estão vendo: sua candidatura visava mesmo era eleger em primeiro lugar o Pena, em segundo lugar o maior número de deputados federais, não importando se são ou não compromissados com o meio ambiente, e em terceiro lugar ajudar o Serra a tentar levar a eleição para o segundo turno, em troca do apoio à candidatura de Gabeira no Rio.
Como diz um antigo companheiro de cadeia, que como Dilma também foi da VAR Palmares, o PV não consegue deixar de ser um partido de direita. E um partido assim não poderia jamais ter quadros para formar o núcleo de governo se eventualmente ganhasse eleições.
Mas isto a educação que as freiras deram a Marina no Acre não chegou a ensinar.