Cerrado diante da única opção: mudar o modelo de exploração predatória por formas sustentáveis de produção
Não apenas denunciam, com suas questões, a pouca atenção recebida pela mídia para a necessidade de preservação e aproveitamento agrosustentável - também reconhecem que é preciso furar a barreira dos interesses econômicos do grande capital que sustentam a ideologia desenvolvimentista do agronegócio e direcionam a mídia regional e local no Cerrado.
O debate com jornalistas de diferentes segmentos - rádio, tv pública e comercial, jornais - ocorrido na Câmara dos Deputados durante seminário sobre agroextrativismo e Cerrado, na quinta-feira (18/06/09), por iniciativa da ong EcoData e da Comissão de Meio Ambiente - confirmou o que já se sabia sobre o pouco espaço que o bioma recebe em relação, principalmente, à Amazônia.
Parece ultrapassada a barreira inicial - a questão da visão da paisagem do cerrado, muitas vezes tida por quem não conhece sua exuberância de perto como monótona e sem graça, com suas árvores retorcidas, em comparação com a exuberância amazônica ou as belezas do Pantanal ou do que restou da Mata Atlântica.
Ficaram evidentes as principais razões que, por trás deste discurso de descaso, estão na raiz da baixa estima do grande bioma das savanas brasileiras - desde o facínio pelo retorno financeiro da exploração agropecuária passando pelo deslocamento pela monocultura agrícola e pecuária extensiva das populações tradicionais até a recolonização por produtores do Sul, com o suporte de grandes capitais.
São entraves à reorganização dos modos de produção dentro de um modelo incipiente de economia autossustentável, refratários à legislação ambiental e ao controle da qualidade do meio ambiente pelo poder do Estado, mesmo diante da ameaça de total devastação da vegetação original em mais poucos anos, com a destruição de fontes e nascentes das vereadas.
O fato de estarem os ambientalistas buscando entender as razões da rápida destruição do Cerrado - agravada nas últimas décadas para permitir a expansão da fronteira agrícola com uso do calcário para produção em larga escala, voltada em boa parte para exportação de carne e soja - mostra agravamento das contradições ecossociais nos últimos tempos, entre o modo capitalista tradicional, conhecido como desenvolvimentismo, e as emergentes novas formas de produção sustentável, que geram relações sociais mais propícias à preservação ambiental.
Desperta-se agora para a necessidade de adequar estas formas emergentes de produção sustentável, como a exploração extrativista de centenas de plantas do Cerrado para os mais diversos fins, ao ambiente predatório da mentalidade dominante formada pelos meios de comunicação nacionais e locais.
São fortíssimas as resistências públicas e privadas à mudança de rumos na forma de produção - os ruralistas impedem há mais de década à inclusão do Cerrado (e da Caatinga) entre os biomas protegidos pela Constituição de 1988, alegando que não querem ver mais cerceamento da liberdade dos fazendeiros, que na região já são obrigados por lei a preservar intactos pelo menos 35% da vegetação original.
Esta resistência se manifesta, na superestrutura, na forma de uma mentalidade desenvolvimentista predatória, onde não tem espaço as novas ideologias e práticas ambientalistas, devida em grande parte à ação da mídia de negócios, seja grande, pequena ou média (como nas capitais do centro-oeste).
A relação causal entre interesses ruralistas e mídia subserviente ao capital, refratária ao cunmprimento da legislação ambiental e respeito aos direitos dos povos tradicionais do interior, está hoje evidente para o mundo acadêmico e os movimentos socioambientalistas.
O reflexo desta mentalidade criada pelo discurso positivista, distoante das preocupações atuais com o impacto econômico, social e ambiental do aquecimento global, é a concentração de poder político nas mãos de partidos e governantes reacionários de direita que são contra a preservação ambiental e querem extrair dos recursos naturais finitos, como a água e o solo do Cerrado, o máximo de lucro no mínimo de tempo, sem se importar com as gerações seguintes.
Políticos-empresários anti-ambientalistas, com o controle dos meios de comunicação, formam um teia de oposição quase intransponível a todos os avanços obtidos pela sociedade brasileira como um todo na substituição da ditadura militar pela democracia.
São os políticos-fazendeiros da soja, da cana-de-açucar e do gado de corte os grandes responsáveis pelo desmatamento acelerado de todo o arco de floresta amazônica da antiga Amazônia Legal (Tocantins, Mato Grosso, Rondônia etc), seguido da derrabada do próprio Cerrado e do consequente abandono de milhares e milhares de hectares de pastos degradadas, cujos solos poderiam ser recuperados facilmente mas não o são porque compensa mais avançar sobre a Amazônia, de onde se tira de imediato a madeira para o mercado doméstico e internacional.
Durante o debate do cerrado na Câmara, a jornalista Marta Salomon, da Folha de São Paulo, lembrou que praticamente não há interesse em se utilizar de uma linha de crédito de R$ 1 bilhão que o BNDES mantém à disposição de quem se interessar pela recuperação de áreas de antigos pastos degradados - apenas R$ 80 milhões foram usados até agora, apesar dos juros favorecidos.
Enquanto for mais rentável avançar sobre terras da Amazônia do que colocar calcáreo e fazer curvas de nível em pastos degradados, fruto do avanço anterior sobre o Cerrado, será impossível aplicar políticas públicas de recuperação de áreas agrícolas para aumentar a produção sem ter que acabar com a vegetação natural que sobrou no centro-oeste.
Para fazer frente às próprias exigências de um modo de produção não tão predatório, que está levando a mais secas e desertificação onde antes havia Cerrado com a maior biodiversidade do planeta, os ambientalistas buscam agora compreender o papel exercido atualmente não apenas pela midia tradicional, de mão única e controlada pelo poder econômico, mas também, principalmente, o potencial dos novos meios de comunicação pública, como as emissoras de televisão e rádio dos poderes públicos, sem fins lucrativos, e os veículos comunitários.
É por estes meios, em especial a televisão pública que já era levada pela parabólica e agora vai ganhar rapidamente nova força com a chegada do sinal digital pelo país todo nos próximos anos, que se poderá contrapor um modelo sustentável, que vai da forma de pensar ao modo de consumir e produzir.
E assim o Cerrado - que gerou tanto lucro ao agronegócio moderno quanto ouro aos antigos colonizadores europeus - terá a oportunidade de ver nascer, da sua própria expansão econômica e concentração de riquezas às custas da destruição ambiental, o germe da antítese representada pela consciência ecológica correndo em paralelo à adoção de novo modelo de aproveitamento dos recursos naturais que engendre novas relações de produção, revertendo o êxodo rural e diversificando as oportunidades de vida saudável e trabalho para população.
Mesmo porque não há outra opção - ou se reverte o modelo agora, ou o aquecimento global se encarregará de fazer o trabalho de esgotar o modo de produção capitalista predador, como já vem fazendo com o deslocamento de culturas e o esgotamento dos solos e das águas.
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