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Desaparecidos famosos: Zé Porfirio das Ligas Camponesas e Marco Chinês, da VAR Palmares

25/12/2008 por João Arnolfo

Achei na livraria popular de um açougue cultural na 312 Norte um livro sobre as lutas dos camponeses em Goiás nos anos 1950/1970, chamado Trombas, A guerrilha de Zé Porfírio. O autor é um jornalista goiano que presenciou os acontecimentos quando jovem repórter, Sebatião de Barros Abreu, hoje expoente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Brasilia.

Dá para ver no mapa como a região de Trombas fica tão perto de Brasilia. Hoje é uma cidadezinha engolida pelo capitalismo que devastou as matas e reimplantou o sistema de classes, entre os que tem e os que nao tem a terra. 

Para se situar visualmente, veja aqui o mapa de Trombas (Goiás) no Google Earth.

A história neste final de 2008 faz lembrar que a esquerda do governo Lula anunciou semana passada que em 2009 serão finalmente abertos os tais arquivos da ditadura de 1964-1985.

Onde com certeza pouca coisa descobriremos, devem ter sumido com o essencial e deixado o resto nos processos falsificados que montaram para as auditorias militares de cada região militar.

O único jeito de saber a verdade será levar a julgamento os torturadores e seus comandantes ainda vivos, para que contem e deixem os demais contarem quem morreu quando e onde está enterrado.

Para explicarem  os desaparecimentos e assassinatos de militantes aqui do planalto central, como José Porfirio de Souza, Honestino Guimarães, Marco Anônio Dias Batista e dezenas de ativistas que lutaram contra a ditadura militar mais recente, no ninho da serpente.

Melhor seria do que abrir apenas os arquivos oficiais, seria o governo ficar contra os torturadores na Justiça. Melhor faria o governo Lula anunciar para 2009, como presente de Ano Novo, que não vai mais mandar  a União assumr a defesa de torturadores em processos movidos pelo Ministério Público, como é o caso da ação contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros, do DOI-Codi de São Paulo, responsáveis por dezenas de mortos e desaparecidos.

Lendo o livro sobre Zé Porfirio ví que está na hora de produzir outro documentário sobre o tema, a guerra de Posse, norte do atual estado de Goiás, e toda a agitação das lutas camponesas que antecedeu o golpe de 1964. A região merece ser revisitada e a história revivida, conectada até agora, com a desruição do meio ambiente e a forma de acumulção criminosa de riqueza (terras) em toda a pré-Amazônia.

Por agora vamos nos ater no desaparecimento do líder Zé Porfirio, em Goiânia (GO), após ser libertado do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), na 43a. Brigada de Infantaria Motorizada, do Comando Militar do Planalto, em Brasília, por ação de sua defensora dativa, a advogada Elizabeth Dinis, que obteve um alvará de soltura - como está no livro de Abreu.

Quando  estava preso no PIC, em 1970, ouvia histórias aos pedaços, nos banhos de sol depois da fase da tortura, sobre outros presos politicos mais velhos, com rosto de camponês do norte, diferente dos paulistas e brasilienses.

Sofremos noites terriveis com gritos de velhos sendo torturados barbaramente. Às vezes os que ainda estavam na fase de interrogatório, apavorados com as noites de horror no PIC, eram tirados das celas individuais e levados até a sala de tortura, num canto do PIC, no segundo andar da Brigada, para ver o que lhes poderia acontecer em seguida se todos não entregasse tudo.

Como havia mais de um camponês velho sendo torturado semanas após semanas, não tenho certeza de ter estado com este ao aquele. Mas outros companheiros da época contam que Porfirio mesmo só passou pelo PIC depois que ja tinhamos sido colocados em liberdade condicional, à espera de julgamento pelo Supremo Tribunal Militar.

O livro de Sebastião Abreu fala especificamente sobre a temporada de Porfirio e os camponeses de Trombas nas dependências do PIC:

Muito tempo depois, nos sinistros anos do governo Médici, tive noticias de Pofírio, preso no PIC da Capital da República, juntamente com Geraldo Marques, José Ribeiro, Dirce Machado e outros dirigentes da resistência aos grileiros. Todos foram torturados barbaramente durante vários dias. Tão intensas eram as torturas, que os outros presos políticos então recolhidos àquela unidade militar protestavam em coro quando as lãmpadas piscavam a cada choque elétrico aplicado durante os intermináveis interrogatórios. Mesmo assim, os gritos de dor ainda podiam ser ouvidos, não obstante o coro que subia das celase a voz de Roberto Carlos, que fluia dos autofalantes cantando Amada Amante, musica que se tornou tristemente célebre para os presos políticos.

O livro ainda rapidamente do período pós 64, a soltura de Porfirio com base na ação da advogada da OAB-GO, etc. Conta que ele saiu do PIC com a advogada,  que o deixou na rodoviária para Goiânia. Na capital goiana tem-se a informação de que pernoitou na casa de um companheiro de nome Zé Fernandes Sobrinho.

No dia seguinte saiu para ir tirar um resto de dinheiro na Caixa Econömica, que tinha ainda da época que era deputado - e nunca mais foi visto.

Bom, até aqui é a informação de Abreu. Daqui em diante são conjecturas.

Parece óbvio para nós que Porfirio foi pego pela repressão e morto em seguida, pois eles já não tinham informação que tirar dele.

Para quem esteve  no movimento estudantil de Goiânia entre 1966 e 1968,  não haveria dúvida sobre o que era capaz o o aparato represssivo em Goiás, conhecido por seus métodos violentos devido à tradição dos jagunços na polícia e a herança recente da resistência que tentara o governador Mauro Borges, tenente-coronel que se opôs ao golpe até novembro de 1964.

 Por isso tudo, para saber um dia a verdade, a primeira pista é ir atrás do paradeiro de Porfirio em Goiás e Brasília.

Os responsáveis pelo comando da repressão em Goiás eram o chefe do DOPS em Goiânia, um torturador chamado José Xavier, mestiço, que a VAR Palmares chegou a rastrear, e acima dele o homem dos militares no estado, chefe do SNI, depois diretor da Policia Federal, o coronel Fleury Curado, branco, membro das oligarquias goianas ligadas aos terratenientes.

Ambos saberiam dizer o que foi feito com as pessoas desaparecidas em sua jurisdição, como José Porfirio, das Ligas Camponesas da guerrilha dos anos 50, e  Marco Antonio Dias Batista, da VAR Palmares, nos anos 70.

No caso do Marco Chinês, como gostava de ser chamado, aparentemente não houve nem prisão. Não há um só registro de sua passagem por algum dos centros de detenção de presos políticos em Goiás ou no Distrito Federal. Deve ter sido executado - quem pode dizer novamente são os ex-chefes da repressão em Goiás e Brasilia na época do Médici, inclusive os generais de pijama.

Seu ultimo contato com gente da organização, em abril, em Goiás, dava conta de que estaria indo para o Norte. Sabiamos que havia movimentação no país todo, cada organização estava escolhendo sua própria área estratégica - mais adiante as várias frentes de libertação, com territórios dirados do controle dos militares, formaram corredores para fechar o cerco em torno de Brasilia.

Isto pode sugerir duas coisas: que Marco Antonio foi parar num encontro de reorganização da guerrilha urbana, em Refice, organizada por remanescenes de várias organizações. Na verdade seria uma emboscada, provavelmene em consequência de delação atribuida ao cabo Anselo,  que teria entrado no país com fundos para organizar a reunião.

Conta-se que todos os participantes da tal conferência  foram mortos na ocasião, num enfrentamento com o Exército, que cercou o local.  Marco Chinês poderia ter caído lá, conjecturam alguns.

Outra suposição é que depois da queda da maior parte da VAR em Brasilia e Goiânia, Marco Antonio tenha ido para o Norte, onde ja havia intensa movimentação em regiões de conflitos entre posseiros e grileiros. Goiano, o Chinês certamente deve ter tido conhecimento da antiga guerrilha de Zé Porfirio.

Dentro da VAR mesmo tinham outros caboclos das antigas. bravos. Lembro de conviver numa conferencia em 1969 com um guerrilheiro famoso, negro, chamado Mariano, codinome Loiola, que vinha das ligas camponesas e tarde teria sido morto na famosa casa de tortura das Forças Armadas na cidade de Petrópolis(RJ).

Já do nosso tempo de liceu em Goiânia, na Frente Revolucionároa Estudanil (FRE) falava-se muito das legendárias ligas camponesas, que do Nordeste passaram para o centro-norte de Goiás e dái pra cima, até a confluência dos rios Tocantins e Araguaia.

Ainda em 1970, pelos respiros que haviam no alto das celas do PIC, pudemos ver a mobilização de carros de combate e caminhões, saindo aparentemente para exercicios em volta do Planalto Central. Anos depois lemos que ja era a primeira incursão do general Antonio Bandeira sobre o Bico do Papapaio, embora não se falase em guerrilha do Araguaia.

Foi ele que teria exigido do ministro dos Transportes na época  que em poucas semanas fosse aberta uma estrada na mata. Inicialmente o governo dizia que era impossivel, que só em uns dois anos conseguiriam abrir a estrada. Acabou feita em uma quinzena, diz a lenda, por ordem do general. Ele pressentia que, para combater os focos de insurgentes no interior do Bico do Papagaio, precisa ter estrada para entrar com sua brigada motorizada.

Poderia ser que Marco Antonio tenha se envolvido nesta fase com visitas ao Norte de Goiás? Teria sido mais um anônimo executado pelos militares na região nas primeiras fases?

Estas hipóteses não fazem muito sentido quando se colocam as coisas na linha de tempo: ele foi visto em Goiás pela ultima vez em meados do primeiro semestre de 1970, por volta de abril.  O que teria feito entre aquele ano e o inicio das operaçoes do PCdoB no Bico do Papagaio? Teria sido dos primeiros? Há relatos que mencionam a presença de outras organizações fazendo levantamentos na região, antes de ali se instalar o PCdoB.

Mas neste caso, não tivera tempo nem de ter dado sinais de vida a outros companheiros ou à familia em Goiânia? Alguns explicam por seu temperamento, outros acham que ele não teve tempo.

Pelos indícios, ainda parece que o mais provável é que foi morto em Goiänia mesmo, assim como Zé Porfirio, da guerrilha de Trombas.

Mais um motivo para abrir os arquivos vivos, os torturadores e seus comandantes - literalmente, para que expliquem à sociedade esta fase negra da repressão contra os movimentos sociais, marxistas ou simplesmente de resistência ao latifundiário como eram os guerrilheiros de Trombas.

Talvez isto explique o intesse nos interrogatorios do PIC, em janeiro de 1970, sobre uma tal base de Alvorada do Norte, para a qual a organização estaria voltada no final de ano quando houve a queda dos soldados e cabos em Brasilia.

Mas aí já é outra história.

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Papai Noel: reinventado pela Coca-Cola contra a Grande Depressão

23/12/2008 por João Arnolfo

Muita gente sofre com a a síndrome do final do ano no mundo urbano ocidental, onde vigora este costume bárbaro do Natal capitalista moderno.

É o auge da hipocrisia maior da religiosidade, misturada com os mais mesquinhos interesses de venda do comércio. Seu nome Natal. Seu símbolo: Papai Noel.

O que se esconde por trás desta estória de Natal, comemoração materialista baseada na compra e troca de presentes? Qual o papel disso na economia? E a função, digamos, social, de reunir familias, etc? Isso melhora a sociedade? Por que ninguem vê os efeitos deste ritual de natal nos dias e meses seguintes?

Pensar nos mendigos, no povo da rua sem nada,  nos sem-terra acampados nas beiras de estradas, nos bilhões de pessoas na miséria no mundo todo - isso não vem ao caso na hora das mesas fartas do Natal, onde um monte de animais se juntariam para comer os cadáveres de outros animais, como dizem os vegetarianos mais radicais.

A culpa é compensada pelas rezas, cultos e missas, onde simbolicamente cada um se projeta no expiador dos pecados do mundo que seria a figura mítica central da tradição judaico-cristã.

E do Natal sai cada qual aliviado, pronto para recomeçar a vida sem sentido em janeiro do ano seguinte, após outra sessão etílica-glutônica no reveillon.

Dessa vez achei  um texto que vem a calhar para esta malade du Noel, este mal-estar do Natal, esta sensação ruim que as pessoas sentem e por isso ficam torcendo para chegar janeiro, com ressaca.

O texto centraliza a culpa no simbolo do natal consumista dos tempos atuais -  esta ridicula figura do Papai Noel.

Desde as origens o tal santo Nicolau é a própria associação personificada entre o cristianismo dos primeiros tempos e as coisas materiais, as riquezas, os presentes que  dava a outras pessoas  - nada a ver com virtudes, apenas com bens materiais, riqueza etc. Sabe-se lá como o cara acumulara.

De santo que sobreviveu à reforma protestante, Papai Noel chegou a garoto-propaganda do capitalismo americano antes da II Guerra Mundial, pintado de vermelho durante uma campanha da Coca-Cola em Nova York, para enfrentar em 1931 a grande depressão iniciada com a quebra da bolsa em 1929.

Como estamos iniciando uma nova Grande Depressão, neste natal podemos aproveitar para nos informar sobre o velhinho capitalista. Para isso,  nada melhor na internet do que  o artigo de Leandro Cruz:

Desmascarando Papai Noel: o santo que virou velho safado

“Quando chega o fim de ano, as ruas são invadidas por figuras bizarras, os papais-noéis. Alguns com barbas de algodão, outros bem magrinhos (estão perdoados, pois ninguém usa uma roupa daquela no verão brasileiro sem perder uns 30 quilos só na transpiração).
Quando as crianças ficam mais espertas, geralmente começam a se perguntar: “Como ele dá conta de entregar presentes para todas as crianças boazinhas do mundo numa única noite?”.
Quando eu estou bem-humorado e não quero revelar que foram os chineses semi-escravos que fabricaram o videogame que o PAI DELAS comprou e deu, geralmente eu respondo. “O Natal é comemorado só em países cristãos. Papai Noel não tem que se preocupar com crianças judias ou muçulmanas ou hindus. Além disso, as crianças boazinhas são muito poucas no mundo cristão. Além do mais, tem a questão do fuso-horário e as renas comem uma ração aditivada desenvolvida pela equipe Ferrari, que as deixa supervelozes. Dá tempo de sobra!”. Mas isso é só quando eu estou bem-humorado…
Mas ando de saco cheio de Papai Noel. Velho batuta que presenteia os ricos e esquece dos pobres. Então vou quebrar os mitos e contar a verdadeira história dessa figura.
Bem, o velho barrigudo e barbudo que inspirou o personagem Papai Noel não morava no Pólo Norte, e sim na cidade de Mira (atual Turquia). Nicolau foi bispo dessa cidade e viveu entre os anos 270 e 350 d.C. Filho de pais muito, muito ricos (tipo assim: se ele fosse criança hoje, os pais dele poderiam dar um Playstation 3 pra ele), gastou TODA a sua herança com obras de caridade, como comprando escravos para os libertar.
Conta-se que uma vez um vizinho estava passando por sérias dificuldades financeiras, com fome e quase sendo escravizado por dívidas. Em seu desespero, esse seu vizinho tinha convencido suas filhas a se prostituírem para sobreviverem.
Nicolau, então, pegou o que sobrara de sua riqueza, pegou três sacos e encheu de moedas de ouro. Na noite de Natal, jogou pela chaminé os saquinhos que salvaram a família, garantindo que as moças mantivessem sua dignidade e ainda tivessem grana para dote de casamento.
Uma vez Nicolau foi preso por causa da perseguição que havia na época contra os cristãos durante o governo do imperador romano Deocleciano. Foi libertado por Constantino, que tirou o cristianismo da ilegalidade. Quando morreu foi sepultado em Mira, a cidade que amava seu bispo. Durante a invasão turca, para impedir a profanação de sua tumba, seus restos mortais foram transferidos para a cidade de Bari, na Itália, daí sua popularidade naquele país (que se espalharia pelo mundo).
Depois do século XVI, nos países em que as reformas protestantes tiveram maior impacto, as homenagens aos santos cristãos foram proibidas, mas Nicolau era tão popular que mesmo assim continuou querido até na Holanda.
A bondade de Nicolau ficou associada ao hábito de dar presentes no fim de ano; até hoje em alguns países as pessoas são presenteadas no dia do santo (6/12) em vez de no Natal. Sua história foi tão difundida que em cada lugar ganhava um colorido diferente e o acréscimo de lendas locais. Foi retratado como um elfo, como um anão, como um velho com um burrico e um saco cheio de presentes nas costas.
Sua história se fundiu com uma lenda escandinava sobre um feiticeiro que andava num trenó, castigava os meninos maus e premiava os bons. Em 1822, o poeta Clement C. Moore, em seu conto “A visit from St. Nicholas” (Uma visita de São Nicolau), consolidou o amálgama entre lenda e história mostrando o bom velhinho num trenó voador puxado por oito renas mágicas.
Muito se discute (e às vezes se briga) pela origem do Papai Noel, mas na verdade ele tem várias origens, versões e adaptações. Ele tem vários nomes ao redor do mundo: Pai Frio, Pai Natal (Noel é Natal em Francês), e em outros continua sendo chamado de São Nicolau. Para nós a versão mais difundida é a estadunidense, que chegou lá com os imigrantes holandeses. A cor dos trajes sempre variou muito: preto, azul e verde eram as mais usadas nas ilustrações. Mas em 1931, uma campanha publicitária da Coca-Cola vestiu o bom velhinho de vermelho e branco (cores da marca de refrigerantes) e ajudou a difundir a roupa dessa cor.
Lamentavelmente, em vez de sua imagem fazer as pessoas quererem se doar e ajudar o próximo (como fazia o Nicolau original), essa versão americana só faz as pessoas desejarem ter mais e mais, pedir presentes e vender, vender, vender. Em vez de bondade, Noel hoje significa egoísmo.
Esse Natal é uma ótima oportunidade para mudar isso: conte para seu filho a verdadeira história de Nicolau, revele que quem dá os presentes dele é você, papai, que o ama mesmo quando ele não é um garoto tão bom assim. Conte que existe gente que não ganha presente não porque é mau, mas sim porque seus pais não têm dinheiro, ou porque esses meninos nem ao menos têm pai, e que nenhum papai do Pólo Norte vai vir visitá-los. Talvez assim você convença seu filho a ser mais parecido com Nicolau e a doar aos mais pobres alguns brinquedos velhos. Isso tem muito mais a ver com espírito natalino do que aquele velho safado dos shoppings.“

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Filha de Olga e Prestes diz que idéias de Marx ainda são importantes para entender o que está acontecendo no mundo

20/12/2008 por João Arnolfo

A derrota do socialismo na ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)  não invalida as teses econômicas de Karl Marx sobre a forma como funciona a sociedade, assim como o fim da era soviética em 1989 ainda não foi entendido  pelos teóricos.

É o que diz em documentário à TV Câmara  a autora Anita Leocadia Prestes, filha do histórico líder Luis Carlos Prestes e da legendária heróina alemã Olga Benares, assassinada pelo regime nazista da Alemanha apos ser entregue pelo ditador Getulio Vargas, antes da entrada do Brasil na II Guerra Mundial.  

Com a mesma visão do velho Partidão que ajudou a dirigir no final, Anita faz criticas e autocriticas a muitos mitos. Ela continua defendendo, por exemplo, a posição de que a esquerda brasileira estava errada ao fazer a  opção pela luta armada  entre 1967 e 1975, como estratégia para derrubar a ditadura militar.

Da mesma forma, segundo ela,  estava errada a tese do seu partido sobre a natureza do golpe de 1964, quando não compreendeu como se dava a articulação da direita golpista militar aliada à burguesia, contra João Goulart. Foi um erro tambem da parte das esquerdas acreditar que poderia ainda haver resistência no Rio Grande do sul contra os militares.

- Não havia chance, se houvesse eu mesmo teria ido para lá - observa, lembrando que a história não  é feita de “se“.

Para Anita, se Leonel Brizola tivesse resistido no Sul, enfrentando militarmente os golpistas de 1964, teria ocorrido uma guerra civil no Brasil   - e  certamente teria havido como consequência uma invasão norte-americana em solo brasileiro, diz ela. Como se sabe, a quarta frota naval americana mantinha navios por perto na época do golpe de abril de 64, caso os militares direitistas se vissem acuados pela reação popular de esquerda.

A maneira pacifica e cautelosa  escolhida no inicio pelos comunistas brasileiros para enfrentar a ditadura militar, querendo ficar apenas no plano dos entendimentos politicos através dos líderes partidários  no Congresso, foi classificada pela esquerda revolucionária como evidente desvio revisionista, resultado da posição de um partido a reboque de Moscou, que estavam errados na análise da realidade.

Alem da critica anti-stalinista feita na Europa desde os anos 50, nessa época das ditaduras do Cone Sul já aparecia como opção revolucionária na America Latina  a via chinesa, maoísta, em que o campesinato pode sim virar classe revolucionária desde que no contexto de uma guerra popular de libertação.  

A visão maoísta surgia no Brasil como alternativa à corrente soviética, onde teoricamente teria ocorrido o modelo leninista da tomada do poder pelos operários junto com soldados, o proletariado contra a burguesia. Por exeplo, Oswaldão, herói do PCdoB na Guerrilha do Araguaia, teria sido treinado na China.

E aqui mais perto, no Caribe, tinhamos o exemplo da tomada do poder em 1959 por Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e outros jovens guerrilheiros. Era a corrente foquista, baseada na teoria de que um pequeno foco de revolucionários de vanguarda conseguiriam deflagar a guerra revolucionária.  

Durante sua participação no chamado movimento tenentista, dos jovens tenentes que se rebeleram na decada de 1920 contra o governo corrupto de Artur Bernardes, no final da Velha República, Luis Carlos Prestes ainda não era marxista. Também já não era positivista, como os militares das décadas anteriores, que seguiam  as idéias de Auguste Comte, porque estas idéias já estavam desgastadas. 

Deslocado do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Sul como punição, Prestes ajudaria a liderar o movimento rebelde que surgiu em 1922, na escola militar de Santo Ângelo (RS).  Alí começa a marcha de uma coluna militar (depois com técnicas de guerrilha) que percorreu o interior do Brasil por três anos, sem que o Exército conseguisse vencer militarmente ou prender os revoltosos.

Sem saber o que era comunismo, os tenentistas se batiam simplesmente por reformas politicas para criar uma república democrática, livrando o país do modelo  agrário-conservador.

A principal bandeira do movimento tenentistas era o voto secreto, para acabar com o esquema de sustentação politica da Velha República.

No confronto com a burguesia agraria, a Coluna Prestes percorreu o país de sul a norte, duas vezes, entre 1924 e  1927. 

 Nas marchas pelo interior do país, desviando-se de estradas onde poderiam ser alcançados por tropas regulares transportadas por caminhão, Prestes eseus revolucionários descobriram com a experiencia da coluna uma realidade social tão injusta, desigual e atrasada que precisava ser mudada urgentemente - mas como? 

Prestes e seus companheiros não conseguiram entender corretamente a realidade brasileira na época, não tinham instrumental teórico para isso. Como um país tão grande e tão rico estava tão pobre, atrasado economicamente e corrompido em suas instituições?

Por falta das armas e munição, sem ter conseguido levantar apoio popular, a coluna se viu enfraquecida e decidiu suspender a luta em fevereiro de 1927, quando  entrou para chaco boliviano, depondo as armas.

 Enquanto trabalhava duro como imigrante na Bolivia, Prestes foi contactado por um histórico lider comunista, Astrogildo Pereira, que em 1922 ajudara a fundar o Partido Comunista do Brasil. Foi quem lhe deixou para ler uma maleta com livros de Karl Marx e Frederic Engels.

De La Paz foi para Buenos Aires, onde teve contatos diretos com os militantes do Partido Comunista da Argentina (PCA), começando sua ampliação.

Entrou em 1931 para o partido comunista, visto na época como o mais avançado de todas as correntes político-filosoficas, que poucos anos atrás, em 1917, tinha tomado o poder na Rússia e formado a URSS.

Enviado para Moscou,  Pestes aprofundou seus estudos de marximo, procurando entender o que acontecia no Brasil.  Com o novo aresenal ideologico o brilhante engenheiro formado pela Escola Militar do Rio conseguiu compreender melhor o capitalismo brasileiro, a realidade que encontrara no interior do país durante a longa marcha da coluna.

“Voltando ao Brasil,  em 1934, estava casado com Olga Benario, comunista alemã que fora a primeira mulher de sua vida. Getúlio Vargas estava no governo e a Aliança Nacional Libertadora, que Prestes assumira, tentou fazer uma insurreição comunista. Com o fracasso, Luís Carlos foi preso, em 1936, e viu sua mulher, judia, ser entregue ao governo alemão. Depois de nove anos preso, Prestes subiu ao palanque ao lado de Vargas. Chefe do PCB eleito Senador, participou da Constituinte em 1946, mas foi para a clandestinidade em 47, quando o registro do Partido Comunista foi cassado. Retornou às atividades políticas em 1960, porém, o golpe militar de 64 devolveu-o à clandestinidade, privando-o de direitos políticos por 10 anos. Colocando-se contra a luta armada, provocou o racha do PCB, quando a ala de Carlos Marighella partiu para a guerrilha urbana. No auge do anticomunismo, em 1971, Prestes radicou-se na União Soviética, permanecendo lá até a anistia de 79. Quando voltou ao Brasil, não conseguiu mais liderar o PCB e perdeu a secretaria-geral em 1983.  Morreu em 1990.“ segundo a Wikipedia.

Prestes rompeu com o PCB em 1985, quando teria dito, senão Anita, que o partido já não era mais revolucionário. 

Maior personagem histórico brasileiro deste contexto do confronto mundial entre o capitalismo e o comunismo, Prestes morreu pobre -  morando em apartamento doado por seu amigo Oscar Niemeyer - e marxista.

Suas cartas estão agora sendo publicada em forma de livro, por iniciativa da filha Anita Leocádia, que as tias salvaram das mãos da Gestapo.

 

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