Desaparecidos famosos: Zé Porfirio das Ligas Camponesas e Marco Chinês, da VAR Palmares
25/12/2008 por João Arnolfo
Achei na livraria popular de um açougue cultural na 312 Norte um livro sobre as lutas dos camponeses em Goiás nos anos 1950/1970, chamado Trombas, A guerrilha de Zé Porfírio. O autor é um jornalista goiano que presenciou os acontecimentos quando jovem repórter, Sebatião de Barros Abreu, hoje expoente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Brasilia.
Dá para ver no mapa como a região de Trombas fica tão perto de Brasilia. Hoje é uma cidadezinha engolida pelo capitalismo que devastou as matas e reimplantou o sistema de classes, entre os que tem e os que nao tem a terra.
Para se situar visualmente, veja aqui o mapa de Trombas (Goiás) no Google Earth.
A história neste final de 2008 faz lembrar que a esquerda do governo Lula anunciou semana passada que em 2009 serão finalmente abertos os tais arquivos da ditadura de 1964-1985.
Onde com certeza pouca coisa descobriremos, devem ter sumido com o essencial e deixado o resto nos processos falsificados que montaram para as auditorias militares de cada região militar.
O único jeito de saber a verdade será levar a julgamento os torturadores e seus comandantes ainda vivos, para que contem e deixem os demais contarem quem morreu quando e onde está enterrado.
Para explicarem os desaparecimentos e assassinatos de militantes aqui do planalto central, como José Porfirio de Souza, Honestino Guimarães, Marco Anônio Dias Batista e dezenas de ativistas que lutaram contra a ditadura militar mais recente, no ninho da serpente.
Melhor seria do que abrir apenas os arquivos oficiais, seria o governo ficar contra os torturadores na Justiça. Melhor faria o governo Lula anunciar para 2009, como presente de Ano Novo, que não vai mais mandar a União assumr a defesa de torturadores em processos movidos pelo Ministério Público, como é o caso da ação contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros, do DOI-Codi de São Paulo, responsáveis por dezenas de mortos e desaparecidos.
Lendo o livro sobre Zé Porfirio ví que está na hora de produzir outro documentário sobre o tema, a guerra de Posse, norte do atual estado de Goiás, e toda a agitação das lutas camponesas que antecedeu o golpe de 1964. A região merece ser revisitada e a história revivida, conectada até agora, com a desruição do meio ambiente e a forma de acumulção criminosa de riqueza (terras) em toda a pré-Amazônia.
Por agora vamos nos ater no desaparecimento do líder Zé Porfirio, em Goiânia (GO), após ser libertado do Pelotão de Investigações Criminais (PIC), na 43a. Brigada de Infantaria Motorizada, do Comando Militar do Planalto, em Brasília, por ação de sua defensora dativa, a advogada Elizabeth Dinis, que obteve um alvará de soltura - como está no livro de Abreu.
Quando estava preso no PIC, em 1970, ouvia histórias aos pedaços, nos banhos de sol depois da fase da tortura, sobre outros presos politicos mais velhos, com rosto de camponês do norte, diferente dos paulistas e brasilienses.
Sofremos noites terriveis com gritos de velhos sendo torturados barbaramente. Às vezes os que ainda estavam na fase de interrogatório, apavorados com as noites de horror no PIC, eram tirados das celas individuais e levados até a sala de tortura, num canto do PIC, no segundo andar da Brigada, para ver o que lhes poderia acontecer em seguida se todos não entregasse tudo.
Como havia mais de um camponês velho sendo torturado semanas após semanas, não tenho certeza de ter estado com este ao aquele. Mas outros companheiros da época contam que Porfirio mesmo só passou pelo PIC depois que ja tinhamos sido colocados em liberdade condicional, à espera de julgamento pelo Supremo Tribunal Militar.
O livro de Sebastião Abreu fala especificamente sobre a temporada de Porfirio e os camponeses de Trombas nas dependências do PIC:
Muito tempo depois, nos sinistros anos do governo Médici, tive noticias de Pofírio, preso no PIC da Capital da República, juntamente com Geraldo Marques, José Ribeiro, Dirce Machado e outros dirigentes da resistência aos grileiros. Todos foram torturados barbaramente durante vários dias. Tão intensas eram as torturas, que os outros presos políticos então recolhidos àquela unidade militar protestavam em coro quando as lãmpadas piscavam a cada choque elétrico aplicado durante os intermináveis interrogatórios. Mesmo assim, os gritos de dor ainda podiam ser ouvidos, não obstante o coro que subia das celase a voz de Roberto Carlos, que fluia dos autofalantes cantando Amada Amante, musica que se tornou tristemente célebre para os presos políticos.
O livro ainda rapidamente do período pós 64, a soltura de Porfirio com base na ação da advogada da OAB-GO, etc. Conta que ele saiu do PIC com a advogada, que o deixou na rodoviária para Goiânia. Na capital goiana tem-se a informação de que pernoitou na casa de um companheiro de nome Zé Fernandes Sobrinho.
No dia seguinte saiu para ir tirar um resto de dinheiro na Caixa Econömica, que tinha ainda da época que era deputado - e nunca mais foi visto.
Bom, até aqui é a informação de Abreu. Daqui em diante são conjecturas.
Parece óbvio para nós que Porfirio foi pego pela repressão e morto em seguida, pois eles já não tinham informação que tirar dele.
Para quem esteve no movimento estudantil de Goiânia entre 1966 e 1968, não haveria dúvida sobre o que era capaz o o aparato represssivo em Goiás, conhecido por seus métodos violentos devido à tradição dos jagunços na polícia e a herança recente da resistência que tentara o governador Mauro Borges, tenente-coronel que se opôs ao golpe até novembro de 1964.
Por isso tudo, para saber um dia a verdade, a primeira pista é ir atrás do paradeiro de Porfirio em Goiás e Brasília.
Os responsáveis pelo comando da repressão em Goiás eram o chefe do DOPS em Goiânia, um torturador chamado José Xavier, mestiço, que a VAR Palmares chegou a rastrear, e acima dele o homem dos militares no estado, chefe do SNI, depois diretor da Policia Federal, o coronel Fleury Curado, branco, membro das oligarquias goianas ligadas aos terratenientes.
Ambos saberiam dizer o que foi feito com as pessoas desaparecidas em sua jurisdição, como José Porfirio, das Ligas Camponesas da guerrilha dos anos 50, e Marco Antonio Dias Batista, da VAR Palmares, nos anos 70.
No caso do Marco Chinês, como gostava de ser chamado, aparentemente não houve nem prisão. Não há um só registro de sua passagem por algum dos centros de detenção de presos políticos em Goiás ou no Distrito Federal. Deve ter sido executado - quem pode dizer novamente são os ex-chefes da repressão em Goiás e Brasilia na época do Médici, inclusive os generais de pijama.
Seu ultimo contato com gente da organização, em abril, em Goiás, dava conta de que estaria indo para o Norte. Sabiamos que havia movimentação no país todo, cada organização estava escolhendo sua própria área estratégica - mais adiante as várias frentes de libertação, com territórios dirados do controle dos militares, formaram corredores para fechar o cerco em torno de Brasilia.
Isto pode sugerir duas coisas: que Marco Antonio foi parar num encontro de reorganização da guerrilha urbana, em Refice, organizada por remanescenes de várias organizações. Na verdade seria uma emboscada, provavelmene em consequência de delação atribuida ao cabo Anselo, que teria entrado no país com fundos para organizar a reunião.
Conta-se que todos os participantes da tal conferência foram mortos na ocasião, num enfrentamento com o Exército, que cercou o local. Marco Chinês poderia ter caído lá, conjecturam alguns.
Outra suposição é que depois da queda da maior parte da VAR em Brasilia e Goiânia, Marco Antonio tenha ido para o Norte, onde ja havia intensa movimentação em regiões de conflitos entre posseiros e grileiros. Goiano, o Chinês certamente deve ter tido conhecimento da antiga guerrilha de Zé Porfirio.
Dentro da VAR mesmo tinham outros caboclos das antigas. bravos. Lembro de conviver numa conferencia em 1969 com um guerrilheiro famoso, negro, chamado Mariano, codinome Loiola, que vinha das ligas camponesas e tarde teria sido morto na famosa casa de tortura das Forças Armadas na cidade de Petrópolis(RJ).
Já do nosso tempo de liceu em Goiânia, na Frente Revolucionároa Estudanil (FRE) falava-se muito das legendárias ligas camponesas, que do Nordeste passaram para o centro-norte de Goiás e dái pra cima, até a confluência dos rios Tocantins e Araguaia.
Ainda em 1970, pelos respiros que haviam no alto das celas do PIC, pudemos ver a mobilização de carros de combate e caminhões, saindo aparentemente para exercicios em volta do Planalto Central. Anos depois lemos que ja era a primeira incursão do general Antonio Bandeira sobre o Bico do Papapaio, embora não se falase em guerrilha do Araguaia.
Foi ele que teria exigido do ministro dos Transportes na época que em poucas semanas fosse aberta uma estrada na mata. Inicialmente o governo dizia que era impossivel, que só em uns dois anos conseguiriam abrir a estrada. Acabou feita em uma quinzena, diz a lenda, por ordem do general. Ele pressentia que, para combater os focos de insurgentes no interior do Bico do Papagaio, precisa ter estrada para entrar com sua brigada motorizada.
Poderia ser que Marco Antonio tenha se envolvido nesta fase com visitas ao Norte de Goiás? Teria sido mais um anônimo executado pelos militares na região nas primeiras fases?
Estas hipóteses não fazem muito sentido quando se colocam as coisas na linha de tempo: ele foi visto em Goiás pela ultima vez em meados do primeiro semestre de 1970, por volta de abril. O que teria feito entre aquele ano e o inicio das operaçoes do PCdoB no Bico do Papagaio? Teria sido dos primeiros? Há relatos que mencionam a presença de outras organizações fazendo levantamentos na região, antes de ali se instalar o PCdoB.
Mas neste caso, não tivera tempo nem de ter dado sinais de vida a outros companheiros ou à familia em Goiânia? Alguns explicam por seu temperamento, outros acham que ele não teve tempo.
Pelos indícios, ainda parece que o mais provável é que foi morto em Goiänia mesmo, assim como Zé Porfirio, da guerrilha de Trombas.
Mais um motivo para abrir os arquivos vivos, os torturadores e seus comandantes - literalmente, para que expliquem à sociedade esta fase negra da repressão contra os movimentos sociais, marxistas ou simplesmente de resistência ao latifundiário como eram os guerrilheiros de Trombas.
Talvez isto explique o intesse nos interrogatorios do PIC, em janeiro de 1970, sobre uma tal base de Alvorada do Norte, para a qual a organização estaria voltada no final de ano quando houve a queda dos soldados e cabos em Brasilia.
Mas aí já é outra história.
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