Militares do Exército passam vergonha na instituição roubando doações às vítimas de Santa Catarina
16/12/2008 por João Arnolfo
Militares do Exército foram pilhados pela imprensa ontem (15) roubando tênis, roupas e outros materiais doados pela população brasileira às vítimas das enchentes de Santa Catarina.
Voluntários civis também foram filmados escolhendo coisas para levar para casa, mostrando o que é o caráter de uma parte da classe média brasileira - o pior possível.
O Exército Brasileiro envolve-se em escândalos regularmente, seja em crimes de tortura contra garotos fumando maconha nos fundos da escola militar de Realengo, no Rio, há poucas semanas, seja em roubos comuns como agora em Santa Catarina.
Uma vergonha que não se explica pelo baixo salário, mas pela herança maldita que herdaram da época que derrubaram o governo João Goulart e até hoje se recusam a entregar os documentos sobre os desaparecidos.
A instituição precisa passar por ampla reformulação, pois herdou tudo de ruim que vem da época da ditadura, quando comandantes davam exemplo ao prender, torturar e matar militantes de esquerda - e deixar seus comandados roubarem o que encontravam com as vítimas e seus familiares.
Roubavam tudo, descaradamente, desde relógios de pulso e dinheiro até veiculos, casas e terras.
Em Brasilia, quando caiu a VAR Palmares no inicio de 1970, simplesmente desapareceram os carros, casas e terras que a organização conseguira comprar para tocar o projeto de implantar um foco guerrilheiro ao norte do Distrito Federal, para atacar a capital federal e libertar o país da ditadura militar.
Quem ficou com as terras de Alvorada do Norte e com os carros que a estavam em nome de militantes? Militares do Exército, esta é a resposta, comandados pelo então general Antonio Bandeira e por sua turma à frente da 43a. Brigada de Infantaria Motorizada, no Setor Militar Urbano de Brasilia.
O responsável em última instância era o general Emilio Garrastazzu Medici, o ditador de plantão no Palácio do Planalto.
Isso acontecia em todo o país. Os militares e seus asseclas civis roubavam e saqueavam tudo que encontravam em poder da guerrilha e nunca mencionaram isso nos autos dos processos fajutos que montavam para dar aparência de legalidade às práticas de sequestro, roubo, tortura e assassinato.
As primeiras terras griladas no Distrito Federal, que deram origem ao processo de descaracterização do projeto original da capital, foram tomadas de posseiros pobres por militares, provavelmente do Exército Brasileiro.
Eles se aproveitavam das armas e fardas para intimidar posseiros pobres e ficar com as terras da União, para uso particular. Nas últimas décadas estas terras vêm sendo regularizadas pelo Governo do Distrito Federal.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) recomendou mês passado que sejam dadas aulas obrigatórias de direitos humanos às Forças Armadas brasileiras, que herdaram do período 1964-1985 uma história de total desprezo pelo atuais valores civilizados.
A cada dia fica claro que isto não basta, pois as Forças Armadas continuam mostrando que não se livraram até hoje da cultura de ilegalidade do período em que ocuparam o poder no Brasil. Pouco se fala nisso, mas os militares em Brasília obrigavam as multinacionais e grandes empresas a dar emprego a seus amigos e colegas de farda no resto do país.
Muita gente se enriqueceu assim, através da corrupção do mais baixo nivel. Formou-se um parte da classe média brasileira dessa forma.
Este é o Exército brasileiro que vem da época da ditadura. Pedir desculpas e reconhecer os erros, expulsar os culpados etc não basta - será que tem jeito?
Mais um motivo para abrir os arquivos da ditadura e punir exemplarmente os torturadores e seus comandantes.
Se isto não for feito, os militares vão continuar passando vergonha no país.
Esta semana o Governo Lula pode aprovar o plano de modernização das Forças Armadas - será que o ministro peemedebista Nelson Jobim, da Defesa, vai incluir aulas de honestidade nos currículos dos quartéis?
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