Glauco e Raoni, vítimas da loucura das religiões e do preconceito contra a expansão da consciência
sábado, 13 de março de 2010
Alvos da loucura de quem procuravam ajudar caridosamente, o cartunista Glauco Villas Boas, da Folha de São Paulo, e seu filho Raoni – foram enterrados esta manhã em São Paulo.
Deixaram a irreparável tristeza em todos que fomos seus amigos, assim como nas gerações que aprenderam a conhecer seu fino humor crítico através de seus personagens, como o Geraldão.
Pessoas bondosas e pacifistas que vindas da geração da contracultura, foram mortos por um “daimista” esquizofrênico que se achava Jesus Cristo, um tomador do chá do santo daime, na “igreja” Céu de Maria, um centro que Glauco fundara nos anos 90 após conhecer a bebida e seus efeitos antidepressivos na Amazônia.
Ironicamente foram também vítimas da crendice de que existe “um outro mundo”, da superstição espiritual que assola a humanidade desde a pré-história, obrigando os buscadores a se esconderem sob a fábula da ideologia religiosa para escaparem da repressão e do preconceito contra o direito a experiências de expansão da consciência à base de plantas psicoativas. Por sinal as mesmas que a que a paleoantropologia atribui a origem das modernas religiões que trocaram as substâncias por sucedâneos como hóstias, vinhos, pães, cantos, danças ou preleções.
Em janeiro de 2010 o Diário Oficial publicou a regulamentação que legaliza o uso ritual da ayahuasca, ou “santo daime” - bebida milenar dos índios amazônicos, à base das plantas psichotria viridis e banisteriopis caapi, usada desde povos pré-incaicos para festas, cerimônias sócio-sexuais, rituais, caçadas e guerras.
Mas a Secretaria Nacional Antidrogas deixou brechas perigosas na legislação, ao não suspender o funcionamento dos rituais até as entidades ayahuasqueiras cumprirem a exigência de fiscalização médico-psicológica dos pretendentes a usuários da droga à base da dimetiltriptamina, cuja molécula só difere por um íon do neurotransmissor serotonina, responsável por controle do humor, prazer e de outras importantes funções do sistema nervoso central.
A regulamentação brasileira, considerada avançada, diz que interessados em experimentar o chá devem ser submetidos a avaliação por especialistas, ou anamneses, para ficar claro se não são portadores de distúrbio mental – mas como ninguém fiscaliza isto, continua como sempre foi: se a bebida é “divina”, como ensinam seus líderes e gurus, deve ser disponibilizada a todos, inclusive a menores e doentes, que certamente seriam “curados” pelo “espírito da floresta”.
A neurologia e o conhecimento empírico mostram que pessoas com alguma predisposição a desequilíbrios psiquiátricos, brain seizures e especialmente esquizofrenias, não podem de modo algum serem submetidas a alucinógenos potentes como o daime, sob risco de surtos imediatos ou progressivos, quase sempre irreversíveis, muitas vezes fatais.
A história das “igrejas” ligadas à entidade-mor do daime, o Centro Eclético da Fluente Luz Universal (Cefluris), está repleta de casos e processos judiciais que atestam este preceito científico, de pessoas com distúrbios mentais que chegaram em busca de alívio (“salvação”) e, após serem “tratadas” com o chá nas pajelanças sob roupagem cristãs acabaram tendo seu estado agravado.
Muitas se imolaram em fogueiras ritualísticas (Amazonas), em armários incendiados ou debaixo de rodas de veículos (Distrito Federal), ou pularam para “a vida astral” do alto de prédios, como em Paris. Ou “rodaram” na vida, como se diz no jargão nortista dos paus que se depreendem de suas árvores para descerem à deriva na correnteza dos rios amazônicos.
Para fugir do preconceito contra rituais não-católicos e mais tarde contra o uso de substâncias psicoativas, os usuários do chá desde cedo se esconderam como “igrejas” com ideologia e imaginário do cristianismo popular, misturado com esoterismos na Amazônia, ou mais tarde como centros espíritas na época das ditaduras do Século XX, para fugir da repressão e serem aceitos pela sociedade nacional, branca, cristã-ocidental.
Glauco e Raoni saíram da vida como vítimas das doenças sociais, inclusive da doença religiosa, e do preconceito contra os psicoativos, para entrarem para a história como heróis da busca pela liberdade e pelo direito ao autoconhecimento.