O fim de Guantánamo e o início da abertura dos arquivos da ditadura brasileira: o quê estas coisas teem em comum?
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009Mohamed el-Gharani foi preso na guerra contra a Al-Quaeda quando tinha 14 anos, por ter jogado uma bomba que matou um soldado da força americana de ocupação do Iraque.
Esta semana, com o novo clima de boa vontade criado com a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos, um juiz americano ordenou sua libertação da base de Guantanamo.
Novos tempos, velhos princípios humanistas, respeito aos direitos dos menores.
Gharani, agora com 21 anos, fez-nos lembrar do companheiro Marco Antonio Dias Batista, o mais jovem dos “desaparecidos” pela ditadura militar brasileira de 1964-1985.
Marco Chinês, nascido em 1954, desapareceu em algum momento após abril de 1970, provavelmente nas mãos do antigo chefe do DOPS de Goiânia, José Xavier, sob ordens do então capitão do Exército Marcos Fleury, que precisa dar explicações à história.
Marco foi idealizador da Frente Revolucionária Estudantil (FRE) quando tinha 14 anos e ja estudava o Livro Vermelho do presidente Mao, no Liceu de Goiânia. Com o fechamento do regime no final de 1968 e o fechamento dos grêmios em fevereiro de 1969, fomos todos para a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR) Palmares.
Desenvolvemos bombas incendiárias rudimentares a partir de coqueteis molotov, chiclete, ponta de cigarro e traques de São João. Marco tinha o cuidado de so queimar carros parados, à noite, para não ferir civis inocentes - era um pequeno humanista formado no entusiasmo da revolução chinesa.
A ditadura tentava vender ao povo a imagem de que éramos terroristas - nunca fomos. Terrorismo é atacar alvos civis sem cuidado com vidas humanas, para criar pânico no inimigo.
Como fizeram os fanáticos islâmicos da Al-Quaeda no 11 de setembro de 2001 ao derrubar as torres de Nova Iorque.
Mas não foi isso que fez o adolescente al-Gharani quando atacou soldados que invadiram o Iraque sob a falsa desculpa de que havia armas de destruição em massa. Não havia, George W. Bush mentia. Assim como mentia ao colocar todos os resistentes na condição de terrorista.
Os tempos são outros, os americanos juram não querer voltar mais a fazer papel de bandido no filme da história contemporânea.
Querem voltar a ser os mocinhos que libertaram o mundo do nazismo.
Que Obama ajude o companheiro Lula a entender que precisa não só abrir os arquivos da ditadura como também a deixar que a Justiça puna exemplarmente os torturadores e seus comandantes militares de 40 anos atrás.
Enquanto isso não ocorrer, Brasil nem Estados Unidos conseguirão viver em paz com sua história recente, pois por trás do desaparecimento de Marco Chines estavam os agentes da CIA e seus comparsas nas Forças Armadas brasileiras, na sujeira da Guerra Fria.