Erros e acertos de presidenciáveis nos primeiros programas
quarta-feira, 18 de agosto de 2010Os primeiros programas eleitorais na TV mostraram o que já se esperava: só se acontecer algo de muito grave para que a companheira Dilma não vire presidente do Brasil.
Seu programa estava bonito, animado e - do ponto de vista da comunicação - tecnicamente no rumo certo. Emoção e argumentos que convencem, do Oiapoque ao Chui, sem deixar de mencionar que ela foi sim militante juvenil que ousou pegar em armas contra a ditadura.
Fez a conexão forte com Lula, mostrou gente com cara de gente e transmitiu a mensagem que a maioria quer ouvir - o país está melhor mas falta muito o que fazer. Talvez tenha exagerado um pouco no tom ufanista, mas dizem que isto funciona num país onde o índice de otimismo está batendo récorde, assim como a aprovação do governo.
Já o Serra aparece bem quando está em primeiro plano, mostra até simpatia, promete estender para o terceiro mundo dos rincões pobres algumas realizações que fez no estado rico que governa. Mas podia ter sido melhor assessorado no rumo, digamos, editorial, do programa - do jingle às tentativas explícitas de tentar parecer com Lula.
Devia ter deixado seus marqueteiros procurar caminhos mais criativos e evitar parecer perdido diante do crescimento adversário e do sucesso do governo Lula. Podia ter evitado essa coisa ridícula, em seu caso, de se apresentar como Zé, que soa tão distante da imagem tradicional dele. Parece que continua o que sempre foi, alguém que ao final acaba impondo seu próprio ponto de vista mesmo quando lhe dizem o contrário - como tentava fazer na época do Plano Real (eu estava lá dentro, na assessoria de imprensa da Fazenda, e me lembro bem como ele criticava o real, não escondia que queria impor suas idéias em questões que não dominava como os verdadeiros teóricos do mecanismo que derrotou a inflação, Pedro Malan, Gustavo Franco e Persio Arida).
Quanto à “irmã“ Marina, com suas posições bíblicas retrógradas, deu no que deu: o programa na tv foi o equivalente a um desastre ambiental, com desculpa do trocadilho. Passou medo mas parecia falar para quem já tem conhecimento do aquecimento global, exagerou quando disse que o mar vai subir sete metros, faz um bom trabalho de denúncia alarmista da questão do aquecimento mas parece que o objetivo devia ser conquistar votos, o que parece não ter conseguido. Ficou preciosos minutos sem aparecer na tela, como se tivessem dito a ela que sua imagem não seria bem recebida… Coisas tecnicamente erradas, que não funcionam, numa situação de busca de voto em que a metade do eleitorado é analfabeto funcional e a maioria vota mesmo é de olho no próprio bem estar imediato, movido por emoções criadas na telinha.
Confirma-se que ela não domina o rumo de seu programa, nem seus companheiros originários controlam a tal comissão eleitoral que os antigos dirigentes criaram para manter o dominio do esquemão em todo o país. Enfim, confirma-se tudo aquilo que nos fez afastar do PV, desde o congresso de 2007, e depois do movimento que um dia viu em Marina Silva uma esperança de renovação interna do partido, tirando/o da direita para o campo de uma esquerda moderna, que um dia pudesse mudar o rumo do desenvolvimento para incorporar a sustentabilidade,acabar com o consumismo e transcender o capitalismo antiecológico.
Ela não cumpriu a disposição de impor práticas de democracia interna e ética partidária, prometeu mas não se empenhou em substituir pelo menos a metade da executiva nacional que há mais de 10 anos desmanda no partido.
Não controlou o PV, não refez a unidade, não reconquistou a militância entusiasmada mas desiludida com as práticas anti-democráticas que impedem renovação e eleição interna em todo o país. Não tirou o poder das mãos dos caciques de sempre, como o presidente nacional, vereador José Penna, de SP, e alguns de seus auxiliares que andaram aprontando com as contas do fundo partidário, como o candidato a governador do DF e ex-tesoureiro do partido, Eduardo Brandão, que o mentem aqui com eterna executiva provisória, sem militância nem eleição de quadros numa capital metropolitna com uma classe média politizada.
Agora amargam menos de um por cento e descrédito de candidatos que de verde nada tem, que deixaram filiar sem critérios. Não são ambientalistas, nem carregam histórico de resistência à ditadura, nada tem a ver com os verdes originários da Alemanha e Austrália - e nem abandonaram as práticas espúrias de fazer negócio com governos locais a torto e direito, em troca de cargos e sabe-se lá mais o quê.
O programa de tv no primeiro dia da propaganda obrigatória refletiu esta confusão, sem uma linha adequada, sem lembrar que meio ambiente está lá embaixo na lista de preocupações dos brasileiros (primeiro vem saúde, emprego, etc). Todo mundo sabia disso. Mas como sempre a camarilha dirigente deve ter repetido a prática anterior de contratar parentes e amigos, de preferência, para fazer os programas do partido - deu no que deu, uma estréia que foi Uma Verdade Inconveniente, para desgosto de Al Gore, por suposto.