Convivendo com Fernando Gabeira diariamente na Câmara dos Deputados (e às vezes fora do Congresso), chamaram minha atenção as mudanças internas que ocorreram com o antigo companheiro da resistência armada contra a ditadura: ele não apenas conseguiu superar as velhas molduras fracassadas da ideologia que dividia o mundo cartesianamente entre o bem e o mal como, principalmente, tornou-se de fato um pacifista.
Não apenas nas palavras mas na forma de tratar as questões políticas e as relações pessoais e também no desapego por bens materiais.
Mesmo tendo passado por experiências semelhantes à dele no exilio, de convivio com o movimento pacifista da contracultura no primeiro mundo no início dos anos 70, sempre tive dificuldades em aceitar esta história de mudar por dentro para mudar o mundo externo.
Por isso chama minha atenção a capacidade que outros têm de evoluir, mudar, aceitar as diferenças e relacionar-se com o mundo de maneira, digamos, muito mais próxima de um Mahatma Gandhi do que do heróico Che Guevara que nos inspirou na juventude durante a militância na Vanguarda Armada Revolucionária (VAR) Palmares.
Agora, na campanha do Rio de Janeiro, vejo Gabeira exteriorizando esta evolução, ao unir gente tão diferente em torno de si como o economista Arminio Fraga, que conheci como jornalista de economia na época que assessorava Pedro Malan no Ministério da Fazenda, e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, senadora do Partido dos Trabalhadores, educada na floresta por freiras católicas, que depois aderiu à religião evangélica com a mesma humildade, coerência e coragem que tinha quando jovem junto a Chico Mendes na defesa da Amazônia.
Assim como o companheiro verde, são pessoas honestas consigo e com a sociedade. Isto as une na campanha de Gabeira a gente tão diferente quanto Caetano Veloso e frei Leonardo Boff, dissidente dominicano que ficou famoso com a teologia da libertação e seus livros mas continua o mesmo frade pobre de sempre.
Quanto a Arminio, serviu ao país como presidente do Banco Central, voltou depois a ser o homem de negócios que ja era - mas não me lembro de ver seu nome envolvido em nenhuma dessas falcatruas bilionárias que mancham a biografia de um ou outro ex-companheiro de esquerda.
Sempre que alguém vem questionar se Gabeira está apenas fazendo pose ou se é mesmo como ele se apresenta, lembro um detalhe: com tantos anos de mandato federal, ele nunca se aproveitou da política para ficar rico, acumular bens. Coerente, manteve-se uma pessoa desapegada de propriedades materiais, ao ponto de morar de aluguel e não ter casa própria, até onde sabia durante os anos que ajudei a liderança do Partido Verde na Câmara.
Já vi ele doando somas elevadas de dinheiro ganho com salário de deputado a associação de moradores em torno de um parque nacional, em Minas, sem contar a ninguem, assim como até recentemente tinha informação de que seus bens mais caros eram a moto, uma camionete, bicicletas e estas pequenas maravilhas eletrônicas como notebook e câmeras digitais. O resto do que ganha como deputado deve ter gasto com a educação das duas filhas e com sua militância verde.
Quem mais faz isso hoje em dia?