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Há 39 anos, início do fim do sonho da guerrilha urbana em Brasília

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há 39 anos, em Taguatinga (DF), exatamente às 19h, eu tinha um ponto marcado com o chefe de uma das células da VAR Palmares formadas por cabos, soldados e sargentos lotados em Brasilia.

O obejtivo era planejar a retomada de nossas aulas de formação política, das quais eu, como jovem professor, era o encarregado. O ano era 1970, plena ditadura feroz.

Verifiquei pela última vez a inseparável pistola automática de autodefesa, calibre meia ponto cinco, se bem me lembro, e enfiei-a sob o cinto na parte de trás da calça, alojada junto ao corpo.

Era treinado para sacar com ambas as mãos, tirando-a de trás - melhor do que na posição tradicional, mais visivel.

Usava a desgastada calça farwest, versão local das calças lee da época de 68, meio folgada. Calcei o topatudo, tênis brasileiro da época, e a camisa branca de manga comprida - quase um uniforme, que tanto servia para calor, com as mangas dobradas, quanto para o friozinho que costumava fazer na capital sempre que chovia nesta época.

O relógio, que tinha ganho de uma tia quando me formara no ginásio dois anos antes, era um pequeno orgulho por ser automático, alem de aguentar alguma água.

No bolso, notas de cruzeiro que obtinha de cambistas perto do Hotel Nacional, trocados pelos preciosos dólares da revolução.

Todo mundo sabia, na organização, que bravos companheiros haviam se arriscado ao desapropriar o cofre do direitista ex-governador corrupto de São Paulo - Ademar de Barros, de triste memória pelo lema que deixaria para história, aquele que “rouba mas faz“.

Um comando havia tomado de assalto a casa de sua amante, que ele mantinha à distância, no belo bairro de Santa Tereza, no Rio, e levado o cofre com dólares roubados de obras públicas.

Para nós, era dinheiro sagrado da resitência, que não nos permitíamos usar a não ser para necessidades estritamente inadiáveis, aluguel de aparelho, comida, transporte e uma ou outra compra de arma no mercado negro de Vila Nova, em Goiânia.

Pouco tempo atrás um companheiro havia sido severamente advertido por ter usado erradamente os recursos da organização . Aparecera usando uma sandália branca nova, de moda, que sabíamos ser cara, além de ter escolhido um restaurante classe média para marcar um encontro (ponto) com uma ala próxima, da Universidade de Brasilia, que estava sendo ampliada para a guerrilha urbana.

Fez autocrítica, mas ao final saiu-se com uma desculpa esfarrapada que entraria para a antologia de frases de efeito da juventude armada no eixo Goiânia-Brasilia: a burguesia é podre mas é gostosa, teria dito Eloi, que mais tarde perderia o irmão Marco, desaparecido.

Aquela tarde de janeiro era particularmente tensa. Estávamos no auge da repressão violentíssima, meses após o derrame do ditador Costa e Silva, onde as notícias eram sempre da queda de algum companheiro, da morte de outro sob tortura, do estouro de algum aparelho no eixo Rio-São Paulo.

O ano anterior tinha sido particularmente duro para a guerrilha, perderamos líderes históricos, abatidos em combate ou entregues sob tortura.

Em dezembro havíamos parado com ações de fustigamento na capital, bombas às três da manhã sob tempestade numa agência do Citybank, então com y ainda.

Precisamos despistar o levantamento que ja estava quase completo de todos os quartéis, seus esgotos, redes de água e luz, enfim. Fazíamos o mapeamento para o ataque futuro ao centro do poder.

Desviando a atenção, em Goiânia a Frente Revolucionária Estudantil - a famosa FRE, criada pelo ainda mais jovem companheiro Marco Chinês, mantinha a pressão com bombas incendiárias sob carros dos organismos de repressão.

A ordem em Brasília era concentrar forças na preparação de quadros militares que seriam enviados num segundo momento para a área estratégica escolhida pelo comando da VAR, em algum lugar do Norte que nós, dos escalões mais baixos, não tomávamos conhecimento.

Meu trabalho tinha sido, nas semnas finais do ano de 69, apressar o treinamento teórico dos companheiros  soldados, cabos e alguns jovens sargentos de vários destacamentos do Comando Militar do Planalto.

Reunia-me regularmente com três ou quatro de cada vez, em quartos alugados em casas de familia na Asa Sul para guardar material didático, e certificava-me de que estavam absorvendo os ensinamentos do marxismo-leninismo.

Treinamento militar eles recebiam primeiro em seus próprios quartéis, de onde desviavam uma ou outra INA (submetralhadoras leves da Indústria Nacional de Armamentos), cantis, algumas fardas velhas e sempre que possivel alguma munição. Tudo aos pouquinhos, de modo a não levantar suspeitas.

O treinamento militar de táticas de guerrilha recebiam teoricamente de um companheiro mais velho, codinome Zanoni, que tinha sido militar profissional antes de deixar o Exército da ditadura para ir trabalhar em um banco e auxiliar a organização.

Alguns destes militares eram bem de confiança - Martins, por exemplo, era um negro de 19 anos, de origem camponesa, irmão mais novo de uma liderança oriunda das ligas de Julião e do famoso Zé Porfirio, da guerrilha de Trombas.

Outros, foram sendo arregimentados às pressas - havia instruções para apressarmos tudo, ja que a fase urbana da guerrilha não estava obtendo o apoio de massa que se esperava. A censura total do regime militar evitava que nossas ações armadas de propaganda surtissem o efeito ensinado nos manuias, ao mesmo tempo que contrarrevolução aprimorava suas táticas de guerra psicológica, aterroziando a população.

Nas estações rodoviárias, aeroportos, locais vigiados e seguros para o regime, estavam espalhados cada vez mais cartazes de “procura-se“, classificando nossos heróis como “terroristas“ e “bandidos“. 

O noticiário censurado impedia que o povo tomasse conhecimento dos atos de propaganda armada e lá uma nota ou outra conseguia furar o bloqueio dos censores mas sempre no contexto adverso para a resistência.

Foi assim que a revista Veja, que havia sido lançada no ano anterior de 1968, ainda chegou a noticiar a explosão de bomba caseira que destruira a fachada do Citybank na avenida W3, em poucas linhas.

Não me lembro se mencionara o ato como terrorismo, mas tínhamos certeza do que fazíamos: se fosse para aterrorizar a população, a bomba montada num aparelho da cidade-satélite de Sobradinho teria sido colocada em meio ao expediente bancário.

Mas não, tínhamos o espírito de 68 permeando nossas ações, lutávamos armados mas com a clareza de que estávamos lutando pela paz, aqui contra os gorilas da ditadura, assim como no exterior contra os massacres do Vietnam.

Por isso bombas eram colocadas apenas como aviso de nossa presença militar nas cidades, sempre de madrugada e com o cuidado de não atingir civis - não éramos terroristas, mas guerrilheiros da liberdade.

Naquele dia 14 de janeiro de 1970 desci do ônibus - como sempre apinhado de trabalhadores que deixavam o Plano Piloto rumo às satélites, viajando a maior parte como passageiros em latas de sardinha, em pé, ao ponto de às vezes temer pela segurança quando um ou outro passageiro se esbarrava na gente…

Medo de que percebera o volume da pequena arma enfiada no cinco, coberta pela japona.

Desci na Praça do Relógio, centro de Taguatinga, tomei as precauçoes de sempre, caminhando entre quarteirões para evitar eventuais seguidores e retornando duas quadras depois à Avenida Samdu, se me lembro, paralela à avenida central.

Por precaução, deveria passar pelo ponto antes de pedir ao taxi para estacionar. O encontro pre-agendado no mês anterior seria num ponto de ônibus.

Reparei que lá estava o soldado Martins, como combinado. Algo me passou pela cabeça mas, aos dezenove anos, era pouco acostumado a considerar a intuição - realmente havia algo estranho. O companheiro estaria triste, ou amarrotado, quem sabe.

O importante é que estava lá, sozinho, cobrindo o ponto como fiel militante da VAR, meu contato com o resto do grupo.

Pedi ao taxista para parar alguns metros adiante, era uma corrida de cinco cruzeiros, se não me engano, de modo que sem troco ele foi dispensado - afinal, era um trabalhador, podia ficar com o troco dos dólares do corrupto Ademar de Barros que liderara em São Paulo, em 1964, a famigerada Marcha pela Liberdade com Deus e a Familia, armação da burguesia para tentar legitimar o golpe militar.

Caminhei de volta ao ponto onde estava o companheiro e só muito perto que percebi seu olhar completamente aterrorizado - ainda levei instintivamente a mão às costas para empunhar a pistola automática, num gesto de autodefesa.

Nisso dezenas de metralhadoras sairam de trás do ponto de önibus, do outro lado da rua também, às minhas costas,  assim como à direita e à esquerda - de todos os lados surgiram homens com metralhadoras engatilhadas.

-Se mexer morre! Parado! Mãos na cabeça, seu filho da puta!

Tirei a mão da pistola, deixei a japona encobrir a arma e não tive outra alternativa senão levantar os branços e me render - mesmo porque, qualquer gesto heróico final resultaria também na morte do outro companheiro, nesta altura com uma pistola 45 apontada para sua cabeça no ponto de önibus.

Fui rapidamente jogado ao chão e em seguida colocado na parte traseira de um jipe, que saiu em disparada.

Já estava escuro quando entramos no Setor Militar Urbano e subiram comigo para o famoso PIC, o Pelotão de Investigação Criminal, do Batalhão de Polícia do Exército, no quartel da 43a. Brigada de Infantaria Motorizada que vínhamos mapeando há meses.

Em pouco tempo estava colocado, ainda antes das primeiras torturas, na salinha de comando do tenente Juvenal, no segundo andar do PIC. Pouco depois chegaria a sinistra figura do general Antônio Bandeira, cercado de seu estado-maior.

Bateu-me no ombro com sua varinha de comando, como via os generais fazendo com seus prisioneiros em filmes da II Guerra, e disse:

-Do senhor, seu Raul, tudo que sabíamos era que usava calça lee e tenis. Agora vamos saber do resto.

Naquela noite mesmo começaram as torturas - queriam saber do aparelho, dos pontos, das armas e dos companheiros.

Aguentei firme, tendo na mente principalmente a imagem da ex-companheira Vera que, certamente, ainda amava e não iria querer vê-la nas garras da gorilada.

Vera me deu forças, sem saber, pois há tempos já estávamos vivendo em aparelhos separados.


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